segunda-feira, 2 de maio de 2011

sigo incendiando bem contente e feliz

Budapeste é uma cidade com uma vida cultural/boêmia incrível. Há sempre o que se fazer, coisas a se ver, concertos de todo o tipo, restaurantes ótimos e tudo a preços acessíveis. Até as baladas são quase sempre gratuitas e, quando não o são, o preço da entrada dificilmente ultrapassa os dé real que você pagaria pro flanelinha no Brasil.

No entanto, tudo tem seu lado negativo. Na Hungria, isso se traduz na maldita fumaça de cigarro que permeia todos os estabelecimentos comerciais. Aqui não dá pra entrar em um lugar e esperar que o cheirinho de lavanda do seu amaciante continue por muito tempo na sua roupa. E você, detestavelmente, acaba por se tornar um fumante passivo crônico.

Na europa, o número de fumantes é bem maior do que no Brasil (algo em torno de 16%). Na Hungria isso é ainda agravado pelo fato de que o cigarro é muito mais barato do que se comparado aos demais países da União Européia, chegando o percentual de fumantes a 50% entre os homens.

Ouvi dizer que tentaram fazer um lei à-la-Serra por aqui, mas que não vingou. Ao invés, a partir de janeiro passou a vigorar uma outra lei em que fica proibido fumar nos pontos de ônibus/tram que, por sinal são ao ar livre (?!?!). Fumar em ambiente fechado com teto baixinho tudo bem, mas no ponto na rua não. Se alguem entender a lógica, por favor me explique.

Então, o que fazer? Talvez achar algum político chato de galocha pra fazer essa lei passar, tipo o Serra mesmo... Nossa! Como pude dizer isso??? Deve ser a raiva falando mais alto... Mas, pensando bem, não seria má idéia. Exportar o Serra pra Hungria seria sem dúvida uma benesse para o Brasil. Fora isso, ele ficaria pertinho da Transilvânia, sua terra natal.

Creio que essa é uma iniciativa válida na qual todos sairiam ganhando, à exceção dos húngaros. Mas, por favor, esperem eu voltar para o Brasil. Ainda prefiro aspirar alcatrão do que correr o risco de trombar com o Serra na rua...

Ajude a acabar com o ostracismo político do nosso amigo Serra. Vamos mandar ele pra Hungria ou pra Transilvânia, o que dá na mesma, já que pros nacionalistas húngaros é tudo a mesma merda. Adira a essa campanha!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

o carro na frente dos bois

Parece que os húngaros estão em uma competição pra ver o quão mais diferente é a sociedade deles das demais. Fala sério, pra que fazer que nem todo o resto do mundo civilizado? É demasiado chato. Por exemplo, pra que ter um nome e sobrenome, assim, simples, fácil? Não, não, não, os húngaros tem que inventar moda.

Sendo assim, os nomes húngaros vêm ao contrário. O primeiro nome é, na verdade, o sobrenome, e o segundo nome é o nome próprio. Sendo assim, Fulano Detal aqui é Detal Fulano. Num exemplo prático, João da Silva se transforma em Kovács (Silva) János (João), pronunciados Côvatch Iánosh. Se o nome de solteira da esposa do João for Szabó Erszébet, ela pode adotar o nome Kovácsné Szabó Erszébet, e por aí vai.

Até aí tudo bem (ou não). O problema é que alguns húngaros decidiram adotar informalmente a formação utilizada pelos outros países. E como os nomes são, em muitos casos, bem bizarros distintos daqueles com os quais estamos acostumados, fica difícil saber o que é nome e o que é sobrenome, quem tem nome ao contrário e quem não tem. Ou seja, é uma zona.

Entendeu? É, eu também não.


Ass: Krósztá Vilmos

E olha que meu nome em húngaro é o nome de uma famosa marca de pálinka, a aguardente local. Coincidência?!

sábado, 16 de abril de 2011

cso csó

Futebol na Hungria tem um rei e não é o Pelé, “entende”. Ele é baixinho, mas também não é o Romário. Ferenc Puskás (Fêrents Pushkash) é, provavelmente, um dos 5 melhores jogadores da história desse esporte e tem o maior número de gols por jogo de todos os tempos. Ele comandou o (quase) imbatível time húngaro da primeira metade dos anos 50 que, na copa de 54, além de dar uma surra no Brasil, por muito, mas muito pouco não levou o caneco pra casa. No entanto, depois da revolução comunista de 56, muitos dos jogadores, incluindo o próprio Puskás, abandonaram o país, abrindo caminho pro Brasil se tornar campeão em 58 e deixando a Hungria no limbo futebolístico em que se encontra até hoje.

Seja para compensar esta frustração, seja por um complexo de inferioridade histórico, eles decidiram diminuir as linhas do campo, a bola e os jogadores e adotaram o pebolim, ou totó, como esporte nacional. Parece brincadeira, mas é sério.

Em um primeiro momento você pode até achar que a paixão esportiva deles é o futebol de verdade ou até mesmo pólo aquático. Pura ilusão. É o pebolim mesmo. TODO bar tem uma mesa com um monte de viciado jogando, e olha que o que não falta aqui é bar. E não é aquele jogo fluído com roleta, bola quicando a todo momento, não. É todo cheio de técnica, fintinha, firula, um tédio. Domínio-finta-gol. Domínio-finta-gol. Para um zero à esquerda no pebolim como eu (seria um munheca-de-pau?), não dá a menor graça jogar com os nativos, eu nem vejo a cor de bolinha. Domínio-finta-gol. Puts, perdi de zero de novo. Sorte que aqui não precisa passar por debaixo da mesa.

Inconformado com a verdade factual exibida nas mesas de pebolim e esperançoso que ainda deveria haver alguma salvação a este povo pagão, resolvi conferir in loco a catástrofe futebolística que assola este país há tantos anos. Lá fui eu ao estádio ver o jogo entre Hungria e Holanda. Acabei descobrindo que a tal catástrofe está mais para praga bíblica. PelamordeDeus. O time de várzea do campinho atrás do terminal de Barão é melhor que a seleção húngara. O frangeiro goleiro deve estar procurando a bola do primeiro gol até agora. Os holandeses passearam com um fácil 4x0. Na verdade, isso representa uma evolução em relação ao jogo ocorrido alguns meses atrás, um humilhante 6x1. Ainda há uma luz no fim do túnel, ainda que seja fraca, opaca, em desvanecimento.

Bom, pelo menos eles podem dizer que são bons no futebol, ainda que em miniatura.

Reparem no uso da canela para o domínio de bola. Quanta finesse, quanta categoria!

*update: a luz parece estar ficando mais intensa. No jogo de volta, em Amsterdam, a Hungria fez 3(!) gols na laranjada, mais do que nossa seleção canarinho na Copa do Mundo da África. Só que a Holanda fez 5. É, não foi dessa vez...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

uma breve história da Hungria*

*ou "como resumir a história milenar de um país em 5 parágrafos"

Era uma vez uma linda planície no meio da Europa. Muita gente gostava de passar um verão pra pegar um bronzeado nesse lugar: romanos, eslavos, hunos, mongóis. Mas os magiares, que vinham da sibéria e eram mais pálidos, gostavam mais ainda do que todos os outros povos e teimaram em ficar por lá, formando um reino que durou quase mil anos.


Mas essa atitude de a-bola-é-minha-e-não-brinco-mais não agradou muito aos Otomanos que resolveram invadir a parada. Para não se ferrarem de vez, os húngaros pediram a ajuda do Schwarzenegger e viraram quintalzinho da Áustria pelos 400 anos seguintes, formando, mais tarde, o Império Austro-Húngaro. Este, por sinal, consistia basicamente nos austríacos mandando e os húngaros obedecendo .

Na 1ª Guerra Mundial o Império Austro-Húngaro escolheu o lado perdedor e sifu. Os húngaros, cansados de serem levados pelo buraco pela Áustria, resolvem se separar. Mal viraram um país independente e já perdem 70% do território e, consequentemente, da população para Romênia, Tchecoslováquia e Iugoslávia, o que fez eles pararem, pensarem, respirarem fundo e dizerem: “FODEU”.

Entra uma ditadura facista e eles escolhem, de novo, o lado perdedor para apoiar na Guerra Mundial-Parte 2, ficando aliados do bigodinho. Cercados pelo Exército Vermelho, os húngaros não tiveram muita opção e foram ocupados pelos soviéticos pelos próximos 10 anos.

Na Revolução de 56, eles bem que tentaram se livrar dos russos, mas estes mataram todos os revolucionários e colocaram um governo pró-vodka até 1989 quando, finalmente, os húngaros puderam passar a saborear toda a gordura trans de um Big Mac capitalista. Hoje em dia a Hungria é uma força econômica no Leste Europeu, membro da União Européia e grande exportador de alimentos, carros e atores pornôs.


Hobsbawn, morda-se de inveja com meu poder de síntese da história húngara!

quinta-feira, 31 de março de 2011

a língua que o diabo respeita

É assim que Chico Buarque define o idioma húngaro. Pra mim, o diabo também fala húngaro, afinal é uma língua que dá medo só de ouvir. Mesmo o nome do país na língua local ja é bem arretado: Magyarország (pronuncia-se módjór-orssag).

Para os que tem preguiça de abrir a enciclopédia, nem que seja a wiki, o húngaro é uma língua urálica trazida pelos magyares da região dos montes urais na atual Rússia. Ela é distantemente aparentada do finlandês e do estoniano e não é parecida com nenhuma delas nem nenhum outro idioma conhecido pelos terráqueos. Em poucas palavras, é um misto de nada com coisa alguma e entender qualquer coisa é difícil pra cacete.



Como exemplo, segue a tradução para o húngaro das sábias palavras do grande poeta baiano Cumpádi Washington:

Pt - "Pau que nasce torto nunca se endireita"

Hu - "Ha valami görbe botként születik soha nem fog kiegyenesedni"


Faremos ainda um outro exercício. Vamos pegar uma palavra universal tipo “polícia” em várias línguas e compará-las:
  • Tcheco: Policie
  • Basco: Polizia
  • Finlandês: Poliisi
  • Croata: Policija
  • Romeno: Poliție
  • Húngaro: Rendőrség

Pois é, esse é o meu drama de todo dia. Se eu tiver que ir pra farmácia, tenho que procurar o "Gyógyszertár". Tentar lembrar o nome das coisas aqui é dureza...

Mas gostaria de deixar registrado como eu vejo (e ouço e leio) o idioma húngaro. Para mim, a melhor maneira de definir o que é esta sopa de letrinhas é compará-la justamente a uma... sopa! Portanto, vamos a receita:

Para o falado:

- 2 colheres de sopa de finlandês (afinal se merecem parecem)

- ½ xicara de chinês nos sons anasalados

- 150g de turco

- um dente de russo (principalmente nos ‘’erres’’)

- Palavras longas e complicadas a gosto

Para o escrito:

- 3L de acentos estranhos tipo ű, ö, ő, além daqueles com os quais ja estamos acostumados em português e de preferência vários na mesma palavra

- Quilos e quilos de letras conjugadas tipo dzs, cs, zs, sz, gy, ny, ty cada qual com um som distinto e totalmente diferente do que você acharia que soariam

Modo de preparo:

Junte tudo, mexa bem e tente tirar qualquer coisa de dentro que faça sentido.


E como não há nada mais legal do que aprender falsos cognatos em línguas bizarras, mando alguns do húngaro:
  • Bunda (bunda) – casaco de pele
  • Kurva (curva) – profissional do sexo
  • Piroska (piroshca) – chapeuzinho vermelho
  • Bacáts tér (bocate têr) - o nome de uma praça perto de casa
  • Puszi (pussi) – beijinho de rosto
  • Fiúk (fiuc) - garotos (hummm, bem que eu ja desconfiava dele...)

Então senhoras, não se esqueçam da bunda no armário. Lá fora ta fazendo um frio...

sziasztok!

Sejam bem-vindos ao meu humilde blog.

O objetivo deste pequeno espaço é compartilhar experiências, opiniões, críticas, curiosidades, ou só besteiras durante o tempo em que eu estiver em Budapeste. Este blog assim como seu dono, vai passar perrengue por causa do frio, se perder em ruas de nomes confusos por falta de um senso de direção aguçado, pegar metro velho com risco de contrair tétano e se sentir frustrado por conseguir falar nem um “meu nome é” em húngaro. E você, caro visitante, vai ficar aí, lendo de camarote.

Sim, legal, mas como diabos vim parar na Hungria? Bom, depois de 4 anos estudando economia, juntei minha trouxinha e decidi me vender ao Kapital. Dessa forma arranjei um estágio durante um ano na Nokia em Budapeste, por intermédio da onipresente Aiesec.

Não tardei a descobrir que vender minha mais-valia por um salário de estagiário não é lá dos negócios mais lucrativos a um recém-formado, ainda mais em um país ex-comunista com uma moeda desvalorizada. Marx tinha razão, afinal. Porém, contudo, entretando e todavia, o saldo final é mais do que positivo (se é que isso é possível) por um simples e único motivo: eu estou morando em Budapeste!

Viver aqui é uma experiência fantástica. Cidade lindíssima e fácil de se locomover, tem todas as facilidades de um capital européia a preços acessíveis. É uma metropole jovem, alternativa, cheia de atividades, aonde só fica em casa bundando quem quer. Tem aspectos negativos, é claro, como o idioma espinhoso e o frio temperado do inverno. Mas como pra tudo na vida tem remédio, os húngaros falam (relativamente) bem inglês e, ao que dizem, o verão é quente pra burro. Ou, como já dizia meu amigo Brian, "always look on the bright side of life". Afinal, este vai ser (e já está sendo) um ano ótimo. Obrigado por partilha-lo comigo.

E aproveitando, eu apresento a verdadeira Rapsódia Húngara, de Ferenc Liszt, interpretada por Tom Cat & Jerry Mouse: